Again: Isocromia

Publicado: 02/01/2011 em Uncategorized

Acho que o ponto alto da relação íntima que mantemos conosco mesmo é quando sentimos essa paixão fervilhante de acordar na nossa pele. De fazer um café da manhã gostoso, porque você merece. Ler um livro especial, que você tem certeza que vai gostar.

Mimos apaixonados que você faz para sua companhia eterna: você mesmo.

Não me entendam mal. Amar aos outros é fundamental, delicioso. Mas passa, efetivamente, pelo amor próprio.

Recentemente, redescobri meu prazer com a escrita. Não que eu tenha parado, mesmo de escrever. Apenas silenciei as vozes mais íntimas, deixando apenas a profissional, a acadêmica, falando por aí.

Chegando agora em 2011, vivo um momento pleno de liberdade, de reencontro e redescoberta. É delicioso!

E sinto, novamente, vontade de dar fôlego à multidão de vozes que canta, grita e sussurra aqui dentro.

Decidi resgatar alguns velhos textos meus, que passo agora a compartilhar. Com quem? Quem tiver tempo e vontade.

Publicado originalmente em: sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que o que têm consciência de dizer. A constância de um movimento ou de uma repulsão dentro da alma se reconhece em hábitos de fazer ou de pensar e se persegue em conseqüências que a própria alma ignora. Os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, esplêndido ou miserável. Com sua paixão, aclaram um mundo exclusivo onde reencontram seu próprio clima. Há um universo do ciúme, da ambição, do egoísmo ou da generosidade. Um universo, isto é, uma metafísica e um estado de espírito. O que é verdadeiro para sentimentos já especializados o será mais ainda para emoções, no fundo, a um tempo tão indeterminadas, tão confusas e tão “certas”, tão distantes e tão “presentes” quanto aquelas que o belo nos desperta ou que o absurdo nos suscita.”

Albert Camus

Isocromia

Eu não sei se há um redator para a história do universo. Mas gostaria de lhe dar os parabéns pelo enredo. No que me compete, tem sido uma aventura cheia de emoções das mais diversas, oferecendo um crescimento muito grande para as personagens.
Há desafio, derrota, aprendizado, vitória.
Há sorriso, lágrima, abraço. Música, grito, oração e suspiro.
E há amor, numa quantidade imensurável, disponível para quem realmente quiser sentir.
Eu olho a minha história, cada capítulo.
Revejo cada momento aflitivo, cada saída encontrada.
Cada decisão tomada, cada opção descartada.
Cada sim, cada não, cada silêncio determinante.
É exatamente o que nós temos, não é? Escolhas e conseqüências.
A vida é tanto uma jornada quanto um passeio.
Tanto um desafio quanto um deleite.
Tudo e muito mais.
Quando voei pela primeira vez, segurei-me na poltrona do avião na decolagem. Um conflito de emoções, uma profusão de sentimentos. O instinto primitivo alertando do perigo de perder o contato com o chão, a alegria de desafiar a gravidade…
E então, elas vieram.
Manadas de nuvens fofinhas, brancas, perfeitas demais para se descrever. Unindo-se aos poucos, tornando-se uma coisa única, um indescritível mar de nuvens até aonde a vista alcançava, o avião navegando por um esplêndido oceano branco.
Lá, totalmente fora do meu ambiente, da rotina, senti-me profundamente em casa.
Havia naquele céu, naquelas nuvens, algo de extraordinariamente íntimo.
Na explosão de sentimentos que me dominavam, demorou algum tempo pra entender como a excitação, o deslumbramento e até algum medo tornaram-se unos com aquele sentimento de êxtase, de pertencimento. Parecia impossível sentimentos tão díspares transformarem-se numa única e poderosa sensação, mas ali estava eu, experimentando algo completamente novo.
Não era mais o Camilo, estudante.
Não era mais o Camilo, funcionário.
Não era o Camilo filho, irmão, ser social.
Sequer era o Camilo como um ser humano.
Não era nenhum Camilo que eu conhecesse.
Era o único Camilo que importava.
Eu e tudo o mais. Vendo dali, nada da nossa rotina viciada tinha importância.
O mundo continuava seu caminho, independente de nossas vontades.
Mesmo que o avião caísse, as nuvens continuariam ali, como se nenhum sonho tivesse sido abruptamente rompido, nenhuma voz fosse definitivamente calada.
Senti um profundo respeito e admiração por tudo o que existe.
Senti que era parte de tudo e que tudo era parte de mim.
Foi um momento sublime. Morrer ou viver não importavam: havia algo muito maior do que isso, o próprio universo pulsando em cada átomo. Quando pousamos, eu havia passado pela experiência mais intensa e maravilhosa da minha vida.
Recapitulando, só havia conseguido encontrar outra situação tão arrebatadora. Era uma tarde fresca, a chuva caindo agradavelmente, o cheiro do mato úmido me entupindo de entusiasmo. Os cavalos estavam quase prontos e, após alguns milhos e afagos, montei na égua mais velha da chácara. Desde o momento em que nos olhamos, aquela sintonia tornou-se evidente. Queríamos, a égua e eu, sorver tudo o que aquele dia tinha para nos dar.
Normalmente lenta e desanimada, Gateada (era esse o nome da minha parceira de quatro patas) disparou alegre pelo mato num ritmo vigoroso, um galope harmonioso e apaixonado. Logo atrás, era preciso dar algumas chicotadas para que os outros cavalos nos acompanhassem.
Não precisei incentivar Gateada a correr. Era exatamente o que ela queria.
Em determinado momento, notei que sequer as rédeas pareciam necessárias: numa simbiose inexplicável, égua e homem pareciam saber perfeitamente o que e como cada um queria.
E então, preenchido por aquele sentimento maravilhoso de inclusão, soltei as rédeas, abri meus braços e, em pleno galope, fechei meus olhos e deixei que a chuva me abraçasse, os pingos caindo fortes contra meu rosto, nossa velocidade alimentando seu poder (não, não corríamos contra a chuva: éramos todos uma coisa só, égua, chuva, homem, mato).
Uma coisa só.
Que coisa é essa?
O que é isso que pude sentir tão vivamente, tão plenamente, para dentro e para muito além de mim?
Como explicar isso? Como justificar, como atribuir significado?
Talvez a melhor pergunta: faz alguma diferença qual o nome que eu dou para essa sensação?
Posso chamar do que quiser.
Posso explicar como achar melhor.
Nada muda o que senti. Nada diminui sua importância.
Veja pelo prisma que quiser, quer seja pelos olhos da ciência, da filosofia, da fé.
Eu senti. Carrego minha própria verdade.
A chuva cai novamente no meu rosto, navego novamente o mar de nuvens.
O Universo circula nas minhas veias, infla meus pulmões.
Eu e o tudo mais, uma coisa só.

É engraçado.
(não, não é; isto se chama I-R-O-N-I-A)
O povo brasileiro (não todos, é verdade, apenas aqueles que se consideram medianos o suficiente para vestir a camisa de “opinião pública”; e como nosso povo ama essa história de ser mediano!) deu agora para se revoltar contra Sérgio Moraes e seu já famoso “estou me lixando para a opinião pública”. Oras, não se espera que haja alguém disposto a defender uma frase tão desavergonhadamente honesta, mas o próprio deputado se deu a este trabalho (mais uma vez) no Programa do Jô, ontem, na Globo. Foi defenestrado, claro, ainda que por um público educado. Houve quem dissesse que quem está se lixando para ele é a opinião pública.
Bem, certamente é este o caso, se formos apurar causas e consequências (trema, saudades eternas, beijos!) das atitudes desonestas que os nossos políticos fazem diariamente.
Note-se que o Homem do Castelo, Edmar Moreira, ficou até apagado no meio de todo o caso. A comunidade mediana desse Brasil hipócrita prefere levar como grande afronta pessoal o discurso de Moraes, exigindo alguma vindicação moral, mas se esquece do grosso dessa bandalheira. Estamos reclamando que o estuprador está nos chamando de vadios. “Pode meter com força, mas me chama com carinho, faz favor”.
E vai além disso.

“Posso pensar antes de falar, dessa vez?”

“Nosso” Moraes (hey, ele foi eleito por “nós”, os brasileiros) disse que “Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem” e “Não me venham dar moral, se nós formos medir a moral da imprensa com os deputados é que nós falamos e não somos escutados. E podem colocar que (sic) eu não tenho medo, não.” Claramente, seu ataque descerebrado estava muito mais voltado para os repórteres insistentes do que para a população mediana que compõe a massa do nosso país. Não que isso ajude muito.
E mais: “Entre ficar com a verdade e a honra e belas noticias em jornais e televisão eu fico com a minha honra, e estou me lixando [para] o que vão escrever” .
As matérias são editadas para atirar nós tudo no fogo (sic), para me encurralar. Se tiver que condenar o Edmar Moreira eu vou condenar, mas se tiver que absolver eu vou absolver” .
É evidente que eu fui provocado. É evidente que deu debate, teve frases e palavras antes e depois. Isso foi tudo para o lixo. O que interessa é aquela frase. A frase não foi boa, foi acalorada, infeliz, mas não retiro ela. Não disse para a população, disse para a jornalista. Disse que pode escrever o que quiser aí que eu me elejo mesmo.”
Pois.
Sabe? É verdade.
Políticos estúpidos e desprovidos de um mínimo de moral são eleitos constantemente. Nosso povo mal é reativo. A memória dura menos que um copo de cerveja. E, verdade seja dita, há em mim um lado que não ficaria muito incomodado se aquele papo de “atirar eles tudo” no fogo fosse mais literal.
Mas, sim, o jornalismo cinza e auto promovente, capaz de filmar acidentes e saborear o sofrimento dos parentes da vítima, esse jornalismo modorrento e parasitário, vampirizando tragédias e polemizando debates (sem o interesse real de promover a síntese, é apenas a euforia de uma boa briga), adora deturpar, redimensionar e inverter notícias, simplesmente para vender mais. Ignorou-se absolutamente o contexto da frase (infeliz, nunca é demais lembrar), tornando o caso muito mais “relevante”. Não que a massa mediana vá fazer mais do que criar banners na internet e aparecer no Jô, “indignada”. Ele volta. Collor está aí , para não me deixar mentir.
A justiça, se assim fosse de fato, tinha mesmo que estar pouco se lixando para o que estúpidos medianos acham dela. É A Justiça, está além dos queixumes imbecis balidos por adeptos da democracia delegativa (esse estrume tão comum, que supõe encerrar sua cidadania somente na hora do voto, podendo voltar para casa depois e deixar o governo apenas nas mãos dos eleitos; estão mais preocupados com o Bahuan do péssimo Márcio Garcia do que com o desenvolvimento da nação). A Justiça deveria estar acima de trivialidades, de manipulações jornalísticas.
E, inevitavelmente, deveria ser protegida por governantes com um mínimo de autocontrole e bom senso. Sem falar no absurdo de se ter um relator com processos nas costas (melhor: é um absurdo ser considerado elegível qualquer ratazana com processos contra ela).
Não, Sérgio Moraes não tem salvação. Estamos livres para jogar pedras nele (e, rapaz, eu tenho um paralelepípedo maravilhoso aqui comigo). Mas seria de bom tom se, ao menos uma vez, arremessássemos nossa fúria com alguma consciência e esclarecimento, conhecimento de causa.
A ironia disto tudo é que o próprio Sérgio Moraes “insinuou” que o Homem do Castelo estava sendo usado como “boi de piranha” e, agora, ele mesmo faz as vezes do pobre bovino nesta cruzada risível de moralidade e indignação do brasileiro mediano. Senão, vejamos: quais foram as medidas concretas que essa bela população medíocre que se denomina opinião pública tomou contra o então presidente interino do Senado, Tião Viana, por exemplo? Ao se manisfestar sobre os absurdos adiamentos do julgamento de Renan Calheiros e sua possível cassação (ah, o caríssimo mediano dificilmente se lembrará de Calheiros, não é mesmo?), o “ilustre” Tião disse: “Ele (Renan) está afastado, e eu estou ocupando essa função interinamente. O que não pode é ficar um ambiente de especulação, como se fosse um delírio paranóico de que tem perseguição para A ou para B, só porque as decisões regimentais não agradam ora a A ora a B”, “Tem que ser maior do que as emoções, do que os delírios paranóicos.”
Então, se alguém estiver aborrecido com o bom cumprimento do regimento, como se diz popularmente, dane-se.”
Ah, ok.
Só para lembrar: “nosso” Renan foi absolvido das acusações claras e evidentes de lavagem de dinheiro.
Simples assim.
Acho que o que resume melhor o episódio é a declaração do senador Jefferson Péres: “O resultado é desastroso para o Senado. O Senado sai destroçado. Não há a menor condição de Renan Calheiros continuar na presidência desta Casa. Se os seis que se abstiveram votassem sim, ele teria sido cassado“.
Não foi apenas desastroso para o Senado.
Foi um desastre político de proporções ridículas, porque nós todos (inclusive os medianos que sequer sabiam o que estava acontecendo) fomos feitos (mais uma vez) de otários.
E, como disse vergonhosamente Tião, sobrou apenas um amargo e doloroso “dane-se” para a nossa combalida moralidade.
No final das contas, se só formos capazes de míseras manifestações do tipo “mãe-tou-na-globo”, nós merecemos esses safados fazendo e falando obscenidades sociais. Vão continuar se lixando, vão continuar mandando a gente se danar.
É relaxar e gozar.

Quando disse ao meu pai que pretendia, no ano seguinte, cursar história na universidade, meu genitor procurou expressar-se de maneira sutil e elegante, dizendo-me que aquilo era “coisa de veado”. Ou melhor, coisa de vIado, porque escrever veado com “e” é coisa de viadinho.

Já bem antes disso eu me preocupava em ser o menos preconceituoso possível, mas ali fui obrigado a levar em consideração o fator genético, tornando minha vigilância ainda mais severa.

Passado um curso inteiro de ciências sociais e muitos fios de cabelo depois, vejo-me na incômoda situação de reconhecer o quanto nos aproximamos dos nossos pais (e, muito claramente, dos erros deles) com o passar do safado do tempo. Não importa muito se a onda agora é duvidar das preferências sexuais de quem cursa design de interiores, o fato é: haverá sempre alguma coisa para arrotarmos, cheios de implicância e soberbia, “é coisa de vIado”, pasteurizando todo um bloco de pessoas díspares.

Mas, gente boa, perdoaê, vai!

Tem certas coisas que não dá!

Veja você o novo comercial do Punto. Eu não entendo muito do mercado gay (e respeito muito essa parcela da sociedade, vale dizer). A bem da verdade, entendo menos ainda o mercado automotivo.

Mas veja, VEJA o comercial do Punto:

Por onde começar?

Talvez pelas olhadinhas comprometedoras antes da corrida?  Faltou só a mordidinha de lábio, ao som de “Gimme More”.

E no final da corrida? O olhar malicioso do piloto do Pin.. digo, Punto, o convite meloso, “quer uma carona?”.

E o cara vai levando o Dragster pra casa, atrelado na traseira do p..unto!

Os olhares e efeitinhos do carro, tudo para impressionar (repare na cara tarada do motorista do punto ao abrir seu “teto solar”).

Como se tudo isso não bastasse, é preciso falar do motorista do Dragster.

Eu pensei em muitas, muitas formas delicadas de dizer isso, mas é difícil. Ele senta. Senta forte.

Na melhor das hipóteses, posso dizer que ele tinha toda pinta de cantor…

villagepeopleguy

É.

Pois é.

Do Village People.

Temendo pela influência retrógrada de algum gene paterno, evitei comentar sobre estas minhas observações. Mas aí me deparei com esta notícia.

Bom, aí danou-se. Quer dizer que o punto tem “estranhas dilatações”, “tampas que se abrem sozinhas” e, principalmente, “bocal do combustível com problemas de rosca”, dificultando seu fechamento.

Isso porque é um punto turbinado. Só faltou reclamarem que o danado vibra muito quando o ritmo é acelerado.

Desculpa aí? Esse comercial é coisa de vIado!

Depois vão falar mal do Ford Ka. Honestamente…

Papai tá bravo

Publicado: 28/04/2009 em Uncategorized

O Superman da era de ouro era bizarro ao extremo

O pior cego é aquele que pisa no seu pé.