É engraçado.
(não, não é; isto se chama I-R-O-N-I-A)
O povo brasileiro (não todos, é verdade, apenas aqueles que se consideram medianos o suficiente para vestir a camisa de “opinião pública”; e como nosso povo ama essa história de ser mediano!) deu agora para se revoltar contra Sérgio Moraes e seu já famoso “estou me lixando para a opinião pública”. Oras, não se espera que haja alguém disposto a defender uma frase tão desavergonhadamente honesta, mas o próprio deputado se deu a este trabalho (mais uma vez) no Programa do Jô, ontem, na Globo. Foi defenestrado, claro, ainda que por um público educado. Houve quem dissesse que quem está se lixando para ele é a opinião pública.
Bem, certamente é este o caso, se formos apurar causas e consequências (trema, saudades eternas, beijos!) das atitudes desonestas que os nossos políticos fazem diariamente.
Note-se que o Homem do Castelo, Edmar Moreira, ficou até apagado no meio de todo o caso. A comunidade mediana desse Brasil hipócrita prefere levar como grande afronta pessoal o discurso de Moraes, exigindo alguma vindicação moral, mas se esquece do grosso dessa bandalheira. Estamos reclamando que o estuprador está nos chamando de vadios. “Pode meter com força, mas me chama com carinho, faz favor”.
E vai além disso.

“Posso pensar antes de falar, dessa vez?”
“Nosso” Moraes (hey, ele foi eleito por “nós”, os brasileiros) disse que “Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem” e “Não me venham dar moral, se nós formos medir a moral da imprensa com os deputados é que nós falamos e não somos escutados. E podem colocar que (sic) eu não tenho medo, não.” Claramente, seu ataque descerebrado estava muito mais voltado para os repórteres insistentes do que para a população mediana que compõe a massa do nosso país. Não que isso ajude muito.
E mais: “Entre ficar com a verdade e a honra e belas noticias em jornais e televisão eu fico com a minha honra, e estou me lixando [para] o que vão escrever” .
“As matérias são editadas para atirar nós tudo no fogo (sic), para me encurralar. Se tiver que condenar o Edmar Moreira eu vou condenar, mas se tiver que absolver eu vou absolver” .
“É evidente que eu fui provocado. É evidente que deu debate, teve frases e palavras antes e depois. Isso foi tudo para o lixo. O que interessa é aquela frase. A frase não foi boa, foi acalorada, infeliz, mas não retiro ela. Não disse para a população, disse para a jornalista. Disse que pode escrever o que quiser aí que eu me elejo mesmo.”
Pois.
Sabe? É verdade.
Políticos estúpidos e desprovidos de um mínimo de moral são eleitos constantemente. Nosso povo mal é reativo. A memória dura menos que um copo de cerveja. E, verdade seja dita, há em mim um lado que não ficaria muito incomodado se aquele papo de “atirar eles tudo” no fogo fosse mais literal.
Mas, sim, o jornalismo cinza e auto promovente, capaz de filmar acidentes e saborear o sofrimento dos parentes da vítima, esse jornalismo modorrento e parasitário, vampirizando tragédias e polemizando debates (sem o interesse real de promover a síntese, é apenas a euforia de uma boa briga), adora deturpar, redimensionar e inverter notícias, simplesmente para vender mais. Ignorou-se absolutamente o contexto da frase (infeliz, nunca é demais lembrar), tornando o caso muito mais “relevante”. Não que a massa mediana vá fazer mais do que criar banners na internet e aparecer no Jô, “indignada”. Ele volta. Collor está aí , para não me deixar mentir.
A justiça, se assim fosse de fato, tinha mesmo que estar pouco se lixando para o que estúpidos medianos acham dela. É A Justiça, está além dos queixumes imbecis balidos por adeptos da democracia delegativa (esse estrume tão comum, que supõe encerrar sua cidadania somente na hora do voto, podendo voltar para casa depois e deixar o governo apenas nas mãos dos eleitos; estão mais preocupados com o Bahuan do péssimo Márcio Garcia do que com o desenvolvimento da nação). A Justiça deveria estar acima de trivialidades, de manipulações jornalísticas.
E, inevitavelmente, deveria ser protegida por governantes com um mínimo de autocontrole e bom senso. Sem falar no absurdo de se ter um relator com processos nas costas (melhor: é um absurdo ser considerado elegível qualquer ratazana com processos contra ela).
Não, Sérgio Moraes não tem salvação. Estamos livres para jogar pedras nele (e, rapaz, eu tenho um paralelepípedo maravilhoso aqui comigo). Mas seria de bom tom se, ao menos uma vez, arremessássemos nossa fúria com alguma consciência e esclarecimento, conhecimento de causa.
A ironia disto tudo é que o próprio Sérgio Moraes “insinuou” que o Homem do Castelo estava sendo usado como “boi de piranha” e, agora, ele mesmo faz as vezes do pobre bovino nesta cruzada risível de moralidade e indignação do brasileiro mediano. Senão, vejamos: quais foram as medidas concretas que essa bela população medíocre que se denomina opinião pública tomou contra o então presidente interino do Senado, Tião Viana, por exemplo? Ao se manisfestar sobre os absurdos adiamentos do julgamento de Renan Calheiros e sua possível cassação (ah, o caríssimo mediano dificilmente se lembrará de Calheiros, não é mesmo?), o “ilustre” Tião disse: “Ele (Renan) está afastado, e eu estou ocupando essa função interinamente. O que não pode é ficar um ambiente de especulação, como se fosse um delírio paranóico de que tem perseguição para A ou para B, só porque as decisões regimentais não agradam ora a A ora a B”, “Tem que ser maior do que as emoções, do que os delírios paranóicos.”
“Então, se alguém estiver aborrecido com o bom cumprimento do regimento, como se diz popularmente, dane-se.”
Ah, ok.
Só para lembrar: “nosso” Renan foi absolvido das acusações claras e evidentes de lavagem de dinheiro.
Simples assim.
Acho que o que resume melhor o episódio é a declaração do senador Jefferson Péres: “O resultado é desastroso para o Senado. O Senado sai destroçado. Não há a menor condição de Renan Calheiros continuar na presidência desta Casa. Se os seis que se abstiveram votassem sim, ele teria sido cassado“.
Não foi apenas desastroso para o Senado.
Foi um desastre político de proporções ridículas, porque nós todos (inclusive os medianos que sequer sabiam o que estava acontecendo) fomos feitos (mais uma vez) de otários.
E, como disse vergonhosamente Tião, sobrou apenas um amargo e doloroso “dane-se” para a nossa combalida moralidade.
No final das contas, se só formos capazes de míseras manifestações do tipo “mãe-tou-na-globo”, nós merecemos esses safados fazendo e falando obscenidades sociais. Vão continuar se lixando, vão continuar mandando a gente se danar.
É relaxar e gozar.
